Porto Alegre sob impacto do El Niño em 2024/Foto: Marcelo Oliveira
Super El Niño pode atingir pico histórico entre 2026 e 2027
Projeções apontam alta probabilidade de evento intenso, com secas no Nordeste, chuvas no Sul e aumento do risco de incêndios e ondas de calor.
Atualizado há 4 horas
Um relatório divulgado nesta segunda-feira (13/04) pela Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (NOAA) aponta para a formação de um novo episódio do El Niño em 2026, com possibilidade de atingir intensidade “muito forte” entre novembro de 2026 e janeiro de 2027. Projeções internacionais indicam ainda o risco de um “super El Niño”, potencialmente o mais intenso em cerca de 140 anos.
No Brasil, análises do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) indicam que o fenômeno deve alterar significativamente os padrões de chuva e temperatura, ampliando a ocorrência de eventos extremos em diferentes regiões do país.
De acordo com a NOAA, a neutralidade climática deve persistir até o trimestre de maio a julho de 2026. A partir daí, a probabilidade de formação do El Niño sobe para 62%. O Cemaden trabalha com um cenário ainda mais crítico, estimando mais de 80% de chance de ocorrência na segunda metade do ano, possivelmente já entre agosto e outubro.
Impactos diretos no Brasil
As projeções apontam efeitos distintos conforme a região. No Sul, a tendência é de aumento de chuvas intensas, com maior risco de enchentes. No Norte e Nordeste, o padrão esperado é de redução das precipitações, com possibilidade de secas severas e atraso no início do período chuvoso.
Já no Centro-Oeste e Sudeste, o cenário indica maior frequência de ondas de calor e queda nos níveis de umidade relativa do ar. Segundo o Cemaden, a combinação de altas temperaturas e estiagem pode elevar de forma expressiva o risco de incêndios florestais no Pantanal e na Amazônia a partir de agosto de 2026.
A climatologista Karina Lima explica que o aumento das chuvas no Sul está associado ao padrão típico do fenômeno. “O El Niño aumenta as chances de enchentes no Sul do Brasil porque costuma provocar chuva acima da média na região”, afirma, ressaltando que eventos extremos têm múltiplas causas e não seguem um comportamento idêntico a cada ocorrência.
Risco de evento histórico
Modelos do Centro Europeu de Previsão Meteorológica de Médio Prazo (ECMWF) indicam um aquecimento anômalo das águas do Pacífico tropical em níveis raramente observados. O fenômeno El Niño é caracterizado por um aumento de pelo menos 0,5°C na temperatura da superfície do oceano, mas episódios extremos podem ultrapassar 2°C.
Em 2015, um dos eventos mais intensos já registrados, o aquecimento chegou a 2,8°C acima da média. O novo episódio pode superar esse patamar, segundo projeções atuais.
Para o professor de ciências atmosféricas Paul Roundy, da Universidade Estadual de Nova York, há risco real de um evento sem precedentes recentes. A avaliação é de que a intensidade prevista entre o fim de 2026 e o início de 2027 pode colocar o fenômeno entre os mais fortes já observados.
Efeitos globais e aumento do calor
Se confirmado, o evento deve provocar impactos em escala global. Entre os efeitos previstos estão secas severas em regiões da América Central, África, Austrália, Indonésia e Filipinas, além de chuvas intensas com risco de enchentes em países próximos à Linha do Equador, como Peru e Equador.
As projeções também indicam aumento na frequência de ondas de calor em diversas partes do mundo, incluindo América do Sul, sul dos Estados Unidos, Europa, África e Índia. No Pacífico, a atividade de ciclones e tufões tende a crescer, enquanto o Atlântico pode registrar redução no número de furacões.
Eventos intensos de El Niño liberam grandes quantidades de calor armazenado no oceano para a atmosfera, elevando a temperatura média global. Nesse cenário, 2027 surge como um dos anos com maior potencial para registrar novos recordes de calor.
Impactos na agricultura e economia
A mudança no regime de chuvas pode afetar diretamente a produção agrícola em diferentes regiões do planeta. Na Índia, por exemplo, a possível redução das monções ameaça colheitas e o abastecimento de alimentos. Em áreas tropicais, a combinação de calor extremo e seca tende a ampliar perdas no campo e pressionar recursos hídricos.
Esses efeitos podem se refletir nos preços dos alimentos e na inflação global, especialmente em países mais vulneráveis às variações climáticas.
Influência do aquecimento global
Especialistas apontam que o aquecimento global está alterando o comportamento do El Niño. O aumento da concentração de gases de efeito estufa reduz a capacidade do sistema climático de dissipar calor entre eventos consecutivos.
Segundo o meteorologista Eric Webb, do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, esse acúmulo de energia favorece a ocorrência de episódios mais intensos. “O sistema climático não consegue dissipar todo o calor antes que outro El Niño ocorra, aumentando novamente a temperatura”, explica.
Incertezas e monitoramento
Apesar das projeções, ainda há incerteza sobre a intensidade final do fenômeno. Modelos climáticos divergem quanto à magnitude do evento, e pesquisadores destacam que cada episódio possui características próprias.
O consenso entre os especialistas, no entanto, é de aumento do risco climático nos próximos anos. A combinação entre variabilidade natural e aquecimento global deve ampliar a frequência e a intensidade de eventos extremos, com impactos ambientais, sociais e econômicos mais significativos.

Rayza Espírito Santo
Redatora, repórter de editorias diversas, social media e fotojornalista.
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