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Coluna: A Ousadia de Fracassar - O BOBO

Texto de Paulo Martare.

Atualizado há 121 dias

Na ousadia de fracassar, percebi que ser bobo nunca foi fácil. Nunca foi simples.
Não era na Idade Média, não era nos livros e muito menos na vida real.
A crônica "Das Vantagens de Ser Bobo”, de Clarice Lispector, é um desses textos que parece que olha direto pra gente (os bobos).
Ela descreve o bobo como quem descreve um tipo raro de gente — aqueles que sentem demais, que se entregam, que ainda enxergam o mundo por um ângulo que a maioria desaprendeu a ver.
Para Clarice, o bobo não é burro.
O bobo é livre.
Livre para se espantar, para errar, para demonstrar afeto, para confiar.
Livre para amar sem manual.
E, justamente por isso, vive com o peito mais exposto do que todo mundo.
Ser sensível dói — e é por isso que tanta gente foge dessa palavra: BOBO.
Os antigos bobos da corte nunca foram os palhaços tolos que a gente imagina.
Eles tinham um papel sério, complexo e ao mesmo tempo sutil:
* divertir,
* aliviar tensões,
* criticar sem ofender,
* dizer verdades que ninguém tinha coragem de dizer.
O bobo da corte era o único que podia rir do rei sem perder a cabeça.
Por trás das roupas coloridas e do jeito espalhafatoso, havia observação profunda, inteligência emocional, timing, coragem.
Muitos deles eram, na prática, os mais sábios do castelo.
Hoje não temos mais bobos oficiais.
Mas, curiosamente, temos muitos bobos modernos: gente sensível que tenta fazer o mundo um pouco mais leve, mesmo sem perceber. Gente que ri de si mesma, que ama sem cálculo, que se entrega, que sente demais, que prefere ser honesta a parecer esperta.
Os bobos de hoje estão no ônibus, na fila do mercado, nas conversas de WhatsApp, nas redes sociais — sempre ali, vivendo de verdade num mundo que vive pela metade.
É aqui que entra Vander Lee, com Românticos — uma obra-prima sobre aqueles que ainda acreditam no amor, mesmo quando o mundo trata isso como defeito.
Vander Lee falava dos que não se encaixam no cinismo moderno: os românticos legítimos.
Os que chegam com o coração aberto, ainda que machucados.
Os que veem poesia onde os outros só veem rotina.
Os que entendem que vulnerabilidade não é fraqueza — é coragem.
“Românticos são poucos.”
Ele canta isso com a certeza de quem sabe que o mundo anda seco demais.
Os românticos são esses bobos modernos: sentem mais do que deveriam, acreditam mais do que convém, enxergam beleza onde os cínicos só veem rotina.
Mas hoje tudo virou rótulo.
E, num mundo acostumado à superficialidade, quando alguém simplesmente demonstra interesse, cuidado, emoção verdadeira… chamam de emocionado.
Quando alguém ama de verdade, chamam de bobo.
Quando alguém acredita no outro, chamam de bobo.
Quando alguém se arrisca, chamam de bobo.
Mas Clarice já tinha avisado:
“Os bobos, com sua aparente falta de lógica, levam vantagem sobre os espertos.”
E leva mesmo.
Porque ser bobo — no sentido mais bonito da palavra — não é ser ingênuo.
É ter coragem de sentir o que muita gente passa a vida inteira escondendo.
É ter autenticidade num século que vive de máscaras.
É resistir ao cinismo que consumiu tanta gente.
O bobo é aquele que ainda guarda uma semente de pureza, mesmo depois de tantas decepções.
Ele tropeça, mas continua.
Ele se machuca, mas aprende.
Ele chora, enxuga as lágrimas e  tenta de novo.
Talvez seja exatamente isso que incomoda os espertos demais: o bobo não endurece.
Entre Clarice e Vander Lee existe a beleza de continuar bobo: os dois entendem que a vida só floresce
Clarice percebeu que o bobo vive de verdade.
Vander Lee percebeu que o romântico resiste.
Ambos falam do mesmo personagem: o ser humano que sente sem vergonha de sentir.
O mundo está cheio de gente treinada para não se apegar, para não demonstrar, para não se vulnerabilizar.
Mas são os bobos — os sensíveis, os românticos, os que ainda acreditam — que mantêm o mundo respirando.
Porque no final das contas, ser bobo é ser humano.
E ser humano, de verdade, é cada vez mais raro.


Coluna de Paulo Martare, que é professor de artes visuais e profissional de artes e letras.
Siga o trabalho dele nas redes sociais @paulomartare.
Foto do Jornalista

Rayza Espírito Santo

Redatora, repórter de editorias diversas, social media e fotojornalista.

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