Ivanir na Caminhada. Foto: Divulgação.
ENTREVISTA – PROFESSOR-DOUTOR BABALAWÔ IVANIR DOS SANTOS
A Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa, movimento inter-religioso lançado na cidade do Rio de Janeiro, em 2008, completa 18 anos em 2025.
Atualizado há 159 dias
A Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa, movimento inter-religioso lançado na cidade do Rio de Janeiro, em 2008, completa 18 anos em 2025. A iniciativa foi uma resposta imediata dos fiéis das religiões de matriz africanas a um ato de violência contra praticantes do Candomblé e da Umbanda, ocorrido no Morro do Dendê, na Ilha do Governador, onde foram ameaçados e impedidos por traficantes locais de cultuar a sua fé religiosa.
Nesta entrevista, o Professor-Doutor Babalawô Ivanir dos Santos, interlocutor da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR) faz um balanço da Caminhada e explica por que ela se tornou uma das principais iniciativas contra a intolerância religiosa no Brasil. Há mais de 40 anos atuando em prol das liberdades, dos direitos humanos, da pluralidade, contra o racismo e a intolerância religiosa, Ivanir dos Santos recebeu o Prêmio International Religious Freedom (IRF), em julho de 2019.

Caminhada. Foto: Divulgação.
Além da premiação em reconhecimento em âmbito nacional e internacional pelas suas lutas e trabalhos exaustivos no apoio ao diálogo inter-religioso, Ivanir recebeu o Prêmio Adolpho Bloch, em 1997, entregue pela Federação Israelita do Rio de Janeiro. Em 2001, recebeu Prêmio Cidadania Mundial, dado pela UNESCO.
Gazeta – A Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa, que em 2025 completa 18 anos, se tornou um dos mais importantes movimentos contra a intolerância religiosa do Brasil. Como o senhor avalia o crescimento desse movimento?
Ivanir – Embora inicialmente o movimento, por iniciativa do CEAP (Centro de Articulação de Populações Marginalizadas), tenha começado com lideranças das religiões de matrizes africanas, já na primeira Caminhada tivemos a adesão de lideranças de outras religiões, como a judaica, evangélica, protestantes, budista, muçulmana, espíritas, católica, wikanos e ateus que compareceram, de forma espontânea, e nos deram a perspectiva de que o objetivo da proposta era viável e possível de ser alcançado. A partir dessa união foi criada a Comissão de Combate à Intolerância Religiosa.
Gazeta – Como anda o diálogo interreligioso que vem se consolidando a partir da criação da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa?
Ivanir – O diálogo tem crescido, vários outros grupos como ciganos e wicanos se juntaram ao movimento. Mas, ultimamente, quem mais tem aderido à Caminhada são os grupos de evangélicos progressistas, que a cada ano têm comparecido em bom número desde que a Caminhada tem sido realizada. Isso é muito bom porque mostra na prática, na rua, como a gente defende a diversidade e o diálogo.
Gazeta – As suas articulações como conselheiro do Ceap e interlocutor da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, além da Caminhada, construíram outras iniciativas importantes pelo direito à liberdade religiosa.
Ivanir – É inegável a ampliação de espaços de diálogo a favor da diversidade religiosa, a partir do surgimento da Caminhada. Tanto no Rio de Janeiro quanto em outros estados do Brasil foram se diversificando conselhos de diversidade religiosa que antes não existiam, tanto nas administrações municipais e estaduais quanto em âmbito nacional.
Gazeta - Qual é a importância dessas iniciativas e qual o impacto que já pode ser observado na sociedade?
Ivanir – No âmbito da sociedade civil foram o crescimento dos fóruns e as caminhadas pela liberdade religiosa que se multiplicaram em todo o Brasil. Mas ainda é preciso que haja medidas efetivas, embora também construímos um pré-projeto do Plano Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, que avançou nos governos Dilma e Lula, mas nunca foi efetivado, não virou política pública. Embora, atualmente, o Governo Federal está tomando iniciativas de fortalecimento das religiões de matriz africana. Como o movimento ganhou corpo na sociedade com o apoio da grande mídia, isso tem influenciado muito alguns governos a tomarem algumas medidas também.
Gazeta – O senhor consegue também apontar algum outro benefício que a Caminhada ajudou a construir?
Ivanir – Se construiu uma narrativa contra-hegemônica à intolerância religiosa. Hoje inegavelmente tem surgido muito debate a respeito desse tema, a imprensa passou a dar grande atenção a essa pauta e impulsionado o debate sobre a intolerância religiosa e o respeito à diversidade.
Gazeta – O senhor considera a adesão da mídia à proposta da Caminhada uma vitória do movimento pela liberdade religiosa?
Ivanir – Sim, e cito como exemplo a campanha que nós fizemos com o apoio da TV Globo, com a participação de vários segmentos religiosos. A Comissão Parlamentar em Defesa do Estado Laico lançada no Rio de Janeiro é um desdobramento desse trabalho na esfera federal. Consequentemente, isso deve ter repercussão também em outros espaços parlamentares estaduais e municipais, com certeza. Ou seja, criou-se uma alternativa ao comportamento unilateral da chamada bancada evangélica, em prol do repeito à diversidade religiosa, ao invés de reafirmar a existência apenas de uma religião.
Gazeta – O Ministério dos Direitos Humanos divulgou no início de 2025 uma pesquisa que mostra a ocorrência de 3.853 casos de intolerância religiosa em 2024, no Brasil. Que tipo de iniciativas podem contribuir para mudar a intolerância religiosa contra praticantes do Candomblé e da Umbanda?

Caminhada. Foto: Divulgação.
Ivanir – Uma das ações importantes é a aplicação e o fortalecimento da Lei 10.639, que desde 2004 tornou obrigatório o ensino da História da África e das culturas afro-brasileira e africana nas redes escolares. Junto a isso, a capacitação de professores, produção de material didático e o impulsionamento de ações na sociedade de maneira geral que fortaleça as ações culturais e sociais do Candomblé e da Umbanda, assim como é feito com outros grupos religiosos. Mas tem que ter recurso, precisa ter orçamento para isso.
Gazeta – Qual é a explicação para esse tipo de comportamento discriminatório contra a cultura afro-brasileira e as religiões que têm a África como matriz?
Ivanir – Primeiro, é o preconceito que existe contra tudo que vem do continente africano, que é uma manifestação do racismo na nossa sociedade. Enquanto que tudo que tem origem no Ocidente e no Oriente é positivo e importante, porque está na base da construção do cristianismo ocidental. O que vem de África é do mal, devido à construção de uma narrativa que é defendida desde os séculos XVII e XVIII afirmando que a África não tem Deus, não tem História, não é uma civilização. Esse preconceito e essa base do racismo são os alicerces do ódio e a intolerância para aceitar o diferente e manter uma perseguição a esses grupos (Candomblé e a Umbanda) no Brasil.
Gazeta – O problema está na crença da existência de uma só maneira de cultuar a existência de Deus?
Ivanir – As pesquisas têm demonstrado que cerca de oitenta por cento da população brasileira acreditam em Deus, ou seja, têm uma referência religiosa. A questão é que não existe só um Deus, são vários deuses, ou melhor, existem várias formas de acreditar em Deus. Não há somente uma forma. O problema surge quando se tenta impor um único jeito de se cultuar a existência de Deus. Quando há o entendimento de que Deus pode atender por vários nomes, com a mesma força criadora, isso é muito importante para todos nós. Então, para dialogar com a sociedade tem que entender que a questão religiosa está no fundo da característica do povo brasileiro.
Gazeta – E quanto aos que não têm religião?
Ivanir – Quem não tem religião também merece ser respeitado, porque afinal de contas o Criador deu a eles o livre-arbítrio. É preciso ter a compreensão que o ser humano é sagrado porque é a expressão do Criador, e entender que para chegar a ele existem vários caminhos.
Gazeta – O que as religiões de matriz africana têm a ensinar sobre o exercício da fé e o respeito à diversidade religiosa?
Ivanir – O que os praticantes dessas tradições africanas culturais, espirituais e sociais podem ensinar às outras pessoas é que formam um grupo muito acolhedor. Nunca alguém entrou em uma casa ou um templo do Candomblé ou da Umbanda e foi discriminado porque a sua crença é diferente. Todo mundo é respeitado, acolhido, se não tiver preconceito senta na nossa mesa e come da nossa comida. Não há distinção, essa é uma característica própria dos grupos que têm da tradição da origem africana porque ela é coletiva, acolhedora e familiar, a chamada família ampliada, onde todos são acolhidos.

Sara Celestino
Repórter-fotográfica, atuando na produção de conteúdo com objetivo de compartilhar a melhor informação para manter você bem-informado! E-mail. gazetarj@gmail.com
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