Jourdan Amóra: o homem que fez da palavra sua trincheira
Morre o jornalista Jourdan Amóra, símbolo da imprensa fluminense!
Niterói e o Estado do Rio de Janeiro decretaram luto oficial de três dias pela morte do jornalista Jourdan Amóra. O velório será realizado nesta segunda-feira (20), às 12h45, no Cemitério Parque da Colina, em Niterói, seguido do sepultamento às 14h45.
Atualizado há 161 dias
Niterói se despede de um dos maiores nomes da imprensa fluminense. Faleceu na manhã deste domingo (19), por volta das 10h30, o jornalista Jourdan Amóra, diretor do tradicional Jornal A TRIBUNA. Ele estava internado há cerca de duas semanas no Complexo Hospitalar de Niterói (CHN) e morreu em decorrência de falência múltipla dos órgãos. Tinha 87 anos.
Apaixonado pela notícia, inquieto por natureza e fiel à palavra impressa até o fim, Jourdan transformou o ato de informar em forma de resistência e amor à cidade. Nascido em Araçuaí, no norte de Minas Gerais, e criado entre Petrópolis, São Gonçalo e Niterói, cresceu cercado por ideias libertárias e o rumor das tipografias.
Mais do que jornalista, foi o repórter da própria vida — alma, papel e tinta de A Tribuna e do Jornal de Icaraí. Atravessou censuras, prisões, revoluções tecnológicas e crises políticas sem jamais abandonar o verbo “lutar”.

Mário Sousa (presidente do Sindicato dos Jornalistas do Estado do Rio de Janeiro), o casal Jourdan Amóra-Eva Lourdes Santana Amóra e os filhos Luís e Gustavo
Uma trajetória marcada por coragem e paixão
Filho de Geographo Barros Amora e Maria Neiva Tanure Amora, Jourdan descobriu cedo a vocação pela escrita. Estudante do Liceu Nilo Peçanha, teve como mentor o professor Geraldo Reis, que o ensinou a enxergar além da superfície.
Aos 14 anos, fundou o jornal Praia das Flechas e, ainda adolescente, presidiu a Federação dos Estudantes Secundários de Niterói (FESN), reforçando a crença de que jornalismo e cidadania caminham juntos.
Nos anos 1950, mergulhou na efervescência política do país e trabalhou em jornais como A Palavra, Diário do Povo, Última Hora, Diário Carioca e Jornal do Brasil, conquistando respeito por sua coragem e sensibilidade nas reportagens.
Em 1965, após ser demitido do Jornal do Brasil sob acusação de “subversão”, comprou o pequeno A Tribuna, então o menor diário de Niterói. Com poucos recursos e muita determinação, transformou o jornal em símbolo de independência e combatividade.
Durante a ditadura militar, enfrentou censura e perseguição. Em 1972, foi preso por agentes da DOPS após publicar denúncias contra o governo Padilha. No dia seguinte, a capa de A Tribuna estampou apenas uma palavra: “Libertas…”, tornando-se ícone da resistência da imprensa fluminense.
O visionário e o legado
Visionário e empreendedor, Jourdan criou o Jornal de Icaraí (1972), primeiro gratuito distribuído porta a porta em Niterói, além da revista Tela (1983) e do semanário A Tribuna de São Gonçalo (1990). À frente da Abrajori (Associação Brasileira de Jornais do Interior), percorreu o país defendendo a modernização tecnológica e o acesso democrático à informação.
Em 1972, casou-se com a professora Eva de Loures Amóra, sua companheira de vida e de redação, a quem chamava de “a mais longa e leal redação da vida”. Eva faleceu em setembro deste ano, e pouco mais de um mês depois, Jourdan partiu — como se ambos tivessem combinado o fechamento de uma última edição juntos.
Os filhos Gustavo e Luiz Jourdan herdaram o mesmo amor pelo ofício, crescendo entre manchetes e bobinas de papel. “Ela era a âncora e o farol, dizia ele. Sem ela, talvez A Tribuna não tivesse resistido.”
Luto oficial e homenagem da cidade

Nas redes sociais, o prefeito de Niterói, Rodrigo Neves, anunciou luto oficial de três dias e lamentou profundamente a morte do amigo e jornalista.
“É com muita tristeza que nos despedimos nesta manhã chuvosa em Niterói de meu amigo e grande jornalista Jourdan Amóra. Fique com Deus, Jourdan.
Meus sentimentos aos amigos, aos filhos Dandan e Gustavo – queridos amigos – e a todos os familiares.
Vamos decretar luto por três dias na cidade em memória e reverência à história desse niteroiense apaixonado por Niterói, que amava o jornalismo e a democracia”, escreveu o prefeito.
Estado decreta luto oficial pela morte do Jornalista
A pedido do deputado estadual Vitor Junior (PDT), o governador Cláudio Castro (PL) decretou luto oficial de três dias em todo o Estado do Rio de Janeiro pela morte do jornalista Jourdan Amóra. O decreto será publicado nesta segunda-feira (20) no Diário Oficial do Estado.
O parlamentar lamentou profundamente a perda e destacou que o gesto representa um reconhecimento público à trajetória de um profissional que marcou a história da comunicação fluminense.
“Recebi com enorme tristeza a notícia da morte do amigo e grande jornalista Jourdan Amóra. A trajetória de ‘Seu Jourdan’, como era carinhosamente chamado, se confunde com a própria história da imprensa do nosso Estado. Ele formou gerações de jornalistas, inspirou leitores e exerceu o ofício com ética, compromisso e competência.
Apaixonado por Niterói, ajudou a contar e a escrever a história da cidade com sensibilidade e coragem. Niterói, o Estado e o jornalismo perdem uma grande voz, mas o legado de Jourdan Amóra permanecerá vivo em cada página que ajudou a escrever”, declarou o deputado Vitor Junior.
O velório de Jourdan Amóra será nesta segunda-feira (20), às 12h45, no Cemitério Parque da Colina, em Niterói. O sepultamento está previsto para as 14h45.
Nota da Redação – por Paulo Celestino
Jornalista e diretor do Jornal Gazeta do Leste Fluminense
Enquanto fazíamos rádio na década de 1990, no programa Bom Dia Maricá, comandado por Josane de Oliveira e pelo saudoso Afonso Alberto, a RCM – Rádio Clube de Maricá era um sucesso absoluto. Seguíamos à risca as pautas publicadas pelo jornal A TRIBUNA, de Niterói — referência e inspiração para todos nós que respirávamos jornalismo local.
Alguns anos depois, tive o privilégio de participar de diversos congressos promovidos pela Associação dos Diretores de Jornais do Interior do Estado do Rio de Janeiro (Adjori-RJ). Em muitos deles, ouvi atentamente as palestras de Jourdan Amóra, que não apenas informavam, mas inspiravam. Ele falava com a paixão de quem acreditava profundamente na imprensa do interior, encorajando colegas que, em meio às dificuldades, pensavam em desistir de seus periódicos.
O amor de Jourdan pelo jornalismo e sua generosidade em compartilhar conhecimento eram marcas de um verdadeiro mestre. Sua forma simples, firme e entusiasmada de ensinar como manter vivo um jornal era um sopro de ânimo para todos nós.
Hoje, ao nos despedirmos de Jourdan Amóra, a Redação da Gazeta Maricá estende seus mais sinceros sentimentos aos filhos Luiz Jourdan e Gustavo, e a toda a família Amóra.
Que o nosso Criador, Jeová Deus, console o coração de todos e mantenha viva a lembrança de um homem que fez do jornalismo um ato de fé, resistência e amor à notícia.

Paulo Celestino
Paulo Celestino, jornalista e produtor audiovisual com um longo histórico de contribuições para a mídia e cultura. Jornal Gazeta do Leste Fluminense, fundador de rádios locais. Idealizador dos sites gazeta24horasrio.com.br e sicomfilmes.com.br
Veja também
Mais
lidas- 1
Carro usado no sequestro de jovem em Itaipu é encontrado carbonizado em

- 2
Corpo de idoso desaparecido em Maricá é encontrado na Estrada da Restinga

- 3
Denúncia expõe trama política e familiar contra Paulo Melo

- 4
Homem é preso após agredir idosa para roubar cerveja em Nova Iguaçu

- 5
Homem é encontrado morto com marcas de tiros na restinga de Maricá

Comentários (0)