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Coluna: A Ousadia de Fracassar – Gratidão
Texto de Paulo Martare.
Atualizado há 82 dias
Na ousadia de fracassar, aprendi que a gratidão não nasce nos dias perfeitos.
Ela nasce, quase sempre, depois da travessia.
Hoje, 06 de janeiro, é celebrado como o Dia da Gratidão.
E não por acaso.
Janeiro chega como um tempo simbólico: início, recomeço, respiro.
É quando a gente ainda está sensível demais para fingir que não sente.
O ano mal começou, e a vida já nos pergunta — em silêncio:
“Você percebeu que ainda está aqui?”
A gratidão, diferente do que se vende por aí, não é otimismo forçado.
Ela não ignora a dor.
Ela reconhece a vida apesar dela.
Em A Vida é Bela, Roberto Benigni nos mostra algo profundamente humano:
a gratidão como resistência.
A capacidade de preservar o riso, o jogo, o afeto, mesmo quando tudo ao redor tenta esmagar a dignidade.
Não é gratidão pelo sofrimento —
é gratidão pela vida que insiste em existir dentro dele.
Já em O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, a gratidão aparece de outro jeito:
no detalhe, no gesto mínimo,
no prazer quase invisível de fazer o bem sem plateia.
Amélie nos ensina que agradecer não é sobre grandes feitos,
mas sobre perceber o que passa despercebido.
Manoel de Barros sabia disso como poucos.
Ele agradecia o “desimportante”, o que não serve, o que sobra.
Enquanto o mundo corre atrás do útil,
ele se ajoelhava diante do inútil —
porque ali mora a poesia.
Talvez a gratidão seja exatamente isso:
um olhar que desacelera para enxergar o que não brilha.
Fernando Pessoa, no corpo simples de Alberto Caeiro, foi ainda mais direto.
Para ele, existir já era suficiente.
Sem explicação.
Sem transcendência forçada.
Gratidão pelo simples fato de estar vivo,
respirando, vendo o mundo passar.
Sem precisar justificar nada.
Os estoicos — Sêneca, Epicteto, Marco Aurélio — caminharam por esse mesmo terreno.
Eles nos lembram que gratidão não é desejar menos,
mas reconhecer o que já somos.
Não agradecer apenas quando tudo dá certo,
mas quando entendemos que nem tudo depende de nós —
e tudo bem.
O budismo vai além:
gratidão como presença plena no agora.
Não no que fomos, nem no que seremos,
mas neste instante frágil e real que acontece agora.
Gonzaguinha canta isso de forma quase definitiva em O Que É, O Que É?:
“Viver e não ter a vergonha de ser feliz.”
Gratidão como coragem de viver sem endurecer.
Lô Borges, em Paisagem da Janela, nos convida a olhar para fora e para dentro ao mesmo tempo.
A agradecer o horizonte,
mesmo quando o quarto parece pequeno demais.
Augusto Boal nos ensinou que gratidão também é coletiva.
Ela não se esgota no indivíduo.
Ela acontece quando percebemos que ninguém se salva sozinho.
Gratidão como consciência,
como transformação,
como encontro.
E aqui, falo em primeira pessoa.
Não só como Paulo Martare,
mas como o palhaço Dr. Blue Bean.
Na palhaçaria hospitalar, como Besteirólogo, no grupo do qual faço parte — os Servos da Alegria —,
aprendi uma das maiores lições da minha vida sobre gratidão.
Não é sobre arrancar risos.
É sobre presença.
Sobre entrar num quarto e perceber que, às vezes,
o maior presente não é a piada —
é o olhar.
É o silêncio respeitado.
É estar ali, inteiro, disponível.
Já vi gratidão acontecer
num sorriso frágil,
num leve aplauso,
num “obrigado” quase sussurrado,
num olhar que dizia mais do que qualquer palavra.
Ali, a gratidão não era discurso.
Era prática.
Era agora.
Talvez por isso o Dia da Gratidão importe tanto.
Porque ele nos lembra que agradecer não é um gesto educado —
é um ato de consciência.
Gratidão não pelo ano que será perfeito,
mas pelo que foi possível.
Pelo que tentamos.
Pelo que fracassamos.
Pelo que aprendemos.
Pelo que ainda pulsa.
Na ousadia de fracassar, agradecer é reconhecer:
apesar de tudo, a vida ainda acontece em nós.
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Coluna de Paulo Martare, que é professor de artes visuais e profissional de artes e letras.
Siga o trabalho dele nas redes sociais @paulomartare .

Rayza Espírito Santo
Redatora, repórter de editorias diversas, social media e fotojornalista.
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