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Coluna: Quando a primeira vez no Maracanã foi nos ombros dos nossos pais
Por Marcos Vinicius Cabral
Atualizado há 5 horas
A primeira vez não apenas acontece — ela se instala. Marca porque o mundo ainda é novo demais para caber dentro da gente.
Marca porque os olhos aprendem a brilhar de um jeito diferente, como se enxergassem além do que veem.
Marca porque somos frágeis e pequenos — e, por isso mesmo, buscamos abrigo. E quando a nossa história se mistura com a de quem admiramos, tudo ganha outro peso.
O sorriso muda.
A alma cresce.
E a felicidade deixa de ser sentimento para se tornar presença.
Falar de Leovegildo Lins Gama Junior é entrar exatamente nesse lugar em que a emoção não bate à porta — ela invade sem pedir licença.
Junior sempre emociona.
Mas não apenas pelo que fez com a bola nos pés. É pelo que carrega no invisível, nesse território onde vivem as lembranças que o tempo não alcança.
Quando ele revive sua primeira vez no Maracanã, naquele Fla-Flu de 1963, erguido sobre os ombros do pai, ao lado do irmão Lino, algo em mim também se levanta.
E eu volto.
Volto ao dia em que atravessei, pela primeira vez, os portões do Maracanã de mãos dadas com o meu saudoso pai.
Naquele 23 de junho de 1985, era um moleque. A partida — válida pelas eliminatórias da Copa do Mundo de 1986 — era Brasil e Paraguai.
Em campo, 22 jogadores buscavam o gol de forma contumaz — mas, dentro de mim, havia um universo inteiro em construção.
Eu tinha 12 anos. E o coração, naquele tempo, não sabia obedecer.
Meu pai, vascaíno assumido, realizava um sonho que não era dele — e talvez por isso tenha sido tão especial para mim.
Porque há gestos que não pertencem a quem os faz, mas a quem os recebe. Há amores que se provam justamente quando não são obrigação.
O jogo terminou empatado: 1 a 1. Gol de Sócrates, resposta de Romerito.
Mas o placar — ah, o placar — era quase irrelevante diante do que acontecia dentro de mim.
Naquele dia, quase 140 mil pessoas respiravam juntas. Um mar humano que pulsava, que vibrava, que fazia o concreto do estádio parecer ter coração.
E, no meio daquela imensidão, algo silencioso nasceu.
Ficou.
E nunca mais me deixou.
Meu primeiro jogo no estádio, fiquei no melhor dos lugares.
Talvez por isso Junior me alcance de um jeito tão profundo.
Porque, em algum lugar da memória, a minha primeira vez em um estádio de futebol se confunde com a dele: nos ombros do pai.
Mas a vida, quando quer ser bonita, não avisa.
Ela surpreende.
E, de alguma forma que só ela sabe explicar, Junior atravessou a arquibancada das minhas lembranças e entrou na minha história.
Não como ex-jogador.
Não como ídolo distante.
Mas como amigo.
E há um peso quase sagrado nessa palavra quando ela é verdadeira.
Eu não dividi o campo com ele. Não vivi o futebol como ele viveu. Mas o encontrei no caminho.
Sim, foram as caricaturas que abriram essa porta improvável, quase invisível aos olhos de quem não acredita.
Ele gostou.
E eu fiquei.
Amante do traço, do exagero que revela o que há de mais verdadeiro, Junior se encantou com o que eu fazia.
E eu me encantei com o que ele me mostrou ser.
Porque houve um instante — raro e precioso — em que o ídolo pareceu se despir da própria grandeza.
Como uma bandeira rubro-negra que, hasteada no alto e ao vento, deixa de ser símbolo para receber as ações do tempo e se tornar sentimento.
E ali estava ele.
Não intocável.
Mas humano.
De uma simplicidade que não se aprende — se carrega. Nos encontramos em 2009. E o tempo, esse escultor silencioso, já desenhou 17 anos desde então.
A admiração mudou de forma.
Virou respeito.
Virou troca.
Virou presença.
Virou amizade.
E há privilégios que não fazem barulho — eles apenas acontecem. Conversar com Junior, trocar mensagens pelo WhatsApp, dividir pequenas coisas... são instantes que carregam uma grandeza impossível de explicar.
Poucos sabem.
Pouquíssimos vivem.
E, ainda assim, há gestos que dizem tudo.
Quando fui produzir o Suderj Informa, não imaginava que viveria uma dessas provas silenciosas de caráter.
Junior aceitou o convite.
Estava gripado e havia motivo de sobra para não ir. Não devia nada a ninguém.
Mas foi.
Foi porque quis.
Foi porque sentiu.
Foi porque, naquele momento, eu precisava dele.
E há gestos que são passes para um gol.
Aquele foi.
Um passe limpo, generoso, preciso — desses que não buscam aplauso, mas encontram destino.
Um passe que me colocou diante do gol.
Um passe para a minha própria consagração.
Dentro de campo, muitos o definem como um lateral-esquerdo brilhante.
Confesso, eu nunca consegui vê-lo assim, limitado a uma posição. Para mim, Junior sempre foi mais — um pensamento em movimento, um organizador de jogadas, alguém que parecia enxergar o jogo antes que ele existisse.
Um extrassérie.
E o tempo, longe de diminuí-lo, apenas o revelou ainda mais.
Os cabelos e o bigode agora prateados não anunciaram fim — anunciaram permanência.
Há mais história, mais calma, mais verdade. O tempo não levou — lapidou.
Hoje, ele é mais.
Mais inteiro.
Mais consciente.
Mais malandro — no melhor sentido que só um carioca entende, desses que caminham por Copacabana como quem conhece os segredos da vida.
Junior não é apenas ídolo.
É memória que insiste.
É referência que orienta.
É humanidade que acolhe.
E, entre tantas improbabilidades que a vida costura sem aviso, uma delas me atravessa com uma força mansa e definitiva: ter transformado admiração em amizade.
E tudo isso teve início nos ombros dos nossos pais, quando o Maracanã nos recebeu pela primeira vez.

Rayza Espírito Santo
Redatora, repórter de editorias diversas, social media e fotojornalista.
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