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Terapia genética transforma células de defesa em “medicamento vivo” contra forma aguda de câncer

Abordagem combina imunoterapia e edição genética de alta precisão.

Atualizado há 103 dias

Um tratamento experimental contra a leucemia linfoblástica aguda de células T (um tipo de câncer sanguíneo) vem chamando a atenção da comunidade científica ao transformar células de defesa em um tipo de “medicamento vivo”. A técnica combina imunoterapia com edição genética de alta precisão e tem sido aplicada em pacientes em situação crítica, para os quais quimioterapia intensiva e transplante de medula óssea deixaram de surtir efeito.

Essa forma de leucemia afeta as células T, glóbulos brancos responsáveis por identificar e eliminar ameaças ao organismo. Na doença, elas passam a se multiplicar de maneira descontrolada, ocupando a medula óssea e comprometendo a produção normal do sangue. Em estágios avançados, o prognóstico costuma ser limitado, o que impulsionou a busca por alternativas baseadas em engenharia genética.

A terapia utiliza células T saudáveis de um doador, que passam por um processo conhecido como base editing. A técnica permite alterar letras específicas do DNA, ajustando bases químicas de forma pontual, sem cortes extensos na dupla hélice. O método reduz o risco de danos colaterais e possibilita programar as células para reconhecer e destruir células com marcadores típicos da leucemia de células T, especialmente o CD7.

Durante o processo, as células doadas passam por várias modificações: desativação de mecanismos que poderiam atacar tecidos saudáveis do receptor, remoção do próprio marcador CD7 para evitar autodestruição, criação de resistência a determinados quimioterápicos e, por fim, programação para eliminar qualquer célula que apresente esse marcador. Após a infusão, as células editadas eliminam praticamente todas as células T do organismo. Com o câncer indetectável, o paciente passa por transplante de medula óssea para reconstruir o sistema imunológico.

O tratamento é considerado intenso. Antes da infusão, o sistema de defesa precisa ser quase totalmente suprimido, o que aumenta o risco de infecções e exige isolamento e monitoramento constantes. Além disso, há registros de mecanismos de escape do câncer, como a perda do marcador CD7, o que pode dificultar a ação das células editadas.

Apesar dos desafios, os resultados iniciais são considerados relevantes. Até agora, oito crianças e dois adultos com leucemia linfoblástica aguda de células T refratária receberam o tratamento, com taxa de remissão de cerca de 64%. Em alguns casos, o câncer deixou de ser detectado, permitindo o transplante de medula e a retomada da rotina, com acompanhamento periódico. A primeira paciente tratada, em 2022, permanece livre da doença.

Especialistas destacam que ainda é necessário acompanhar os pacientes por mais tempo para avaliar a duração da resposta, a segurança a longo prazo da edição genética, a possibilidade de ampliar a oferta do tratamento e os desafios de custo e acesso. Por enquanto, a terapia está restrita a centros altamente especializados e a protocolos de pesquisa clínica.

Mesmo em fase experimental, o chamado “medicamento vivo” aponta para uma mudança na forma de enfrentar leucemias agressivas. Em vez de depender apenas de drogas convencionais, a estratégia aposta em treinar o próprio sistema imunológico (reconstruído a partir de um doador) para atuar de forma mais precisa contra o câncer. Estudos em andamento avaliam se variações dessa abordagem podem ser aplicadas a outros tipos de leucemia e, no futuro, a tumores sólidos.

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Rayza Espírito Santo

Redatora, repórter de editorias diversas, social media e fotojornalista.

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