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Coluna: A Ousadia de Fracassar – O Medo de Dar Certo
Texto de Paulo Martare.
Atualizado há 102 dias
Na ousadia de fracassar, descobri algo que quase ninguém admite em voz alta: às vezes, o que mais apavora não é o erro — é o acerto. Existe um medo silencioso, elegante até, que veste a máscara da prudência, mas que, no fundo, esconde uma verdade desconcertante: tem gente que teme dar certo.
Aristóteles dizia que a coragem não é ausência de medo, mas a decisão de avançar apesar dele.
E talvez seja por isso que tanta gente se esconde — não do fracasso, mas da própria possibilidade de crescer.
Há uma verdade silenciosa que evitamos encarar:
só fracassa quem tenta.
E é exatamente por isso que fracassar é um privilégio — um privilégio de quem escolheu sair da plateia e pisar no palco.
Nietzsche entendia esse risco quando escreveu que é preciso ter “um caos dentro de si para parir uma estrela dançante”.
Caos é movimento.
Caos é tentativa.
Caos é vida.
Quem escolhe permanecer imóvel pode até não errar, mas também não cria, não transforma, não floresce.
Fernando Pessoa, com seus infinitos eus, já confessava:
“Tudo vale a pena se a alma não é pequena.”
E o que é “valer a pena”, senão aceitar que o caminho é feito de tropeços, desvios, tentativas desajeitadas e momentos luminosos que só aparecem porque ousamos seguir?
O sucesso — esse mito moderno que tantos desejam — não é o oposto do fracasso.
Ele é o filho dele.
Picasso rasgava quadros, Van Gogh recomeçava compulsivamente, Clarice reescrevia a mesma frase dezenas de vezes.
Eles não tinham medo de errar.
Tinham medo, isso sim, de não tentar.
Ninguém chega ao acerto sem caminhar pelo terreno irregular da tentativa.
É a fragilidade do gesto que dá força à obra.
Mas aí entra o paradoxo mais humano de todos:
o sucesso assusta porque, para alcançá-lo, precisamos atravessar o território que mais evitamos — o risco do fracasso.
As pessoas não temem errar.
Temem a ousadia de fracassar.
Temem ser vistas tentando.
Temem a exposição, o improviso, o ridículo.
Temem abrir mão da segurança das desculpas.
E então preferem ficar à sombra, onde nada nasce, mas também nada ameaça.
Os Titãs, com a sinceridade melancólica de “Epitáfio”, lembram aquilo que geralmente só percebemos tarde demais:
“Devia ter arriscado mais
E até errado mais
Ter feito o que eu queria fazer.”
Não é um lamento sobre erros cometidos — é um lamento sobre vidas que não ousamos viver.
E é isso que o medo de dar certo faz:
Ele paralisa justamente no momento em que deveríamos avançar.
Nos convence de que é mais seguro permanecer pequenos, quando o mundo está pedindo para crescermos.
Nietzsche, Pessoa, Clarice, Van Gogh — todos tropeçaram, e em cada tropeço construíram algo.
Não por falta de medo, mas por excesso de vida.
Talvez o grande segredo seja entender que fracassar não é cair — é caminhar.
O único fracasso insuportável é aquele que nasce da imobilidade.
Porque, no fim das contas, a ousadia de fracassar é a verdadeira ousadia de dar certo.
É ela que empurra, que expande, que cria espaço para o novo.
É ela que nos transforma de espectadores em autores da própria história.
Dar certo não é para quem nunca erra.
É para quem não tem vergonha de tentar.
Coluna de Paulo Martare, que é professor de artes visuais e profissional de artes e letras.
Siga o trabalho dele nas redes sociais @paulomartare .

Rayza Espírito Santo
Redatora, repórter de editorias diversas, social media e fotojornalista.
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