Tatiana Sampaio dedicou quase três décadas de pesquisa na UFRJ para desenvolver a polilaminina, uma molécula revolucionária que reconecta neurônios lesionadosFoto: Reprodução/ND Mais
Polilaminina reacende esperança em lesões na medula
Pesquisa iniciada na UFRJ mostra resultados promissores, mas ainda gera debate científico
Atualizado há 34 dias
Uma substância desenvolvida a partir de pesquisas brasileiras pode representar um avanço significativo no tratamento de lesões na medula espinhal. A polilaminina, produzida a partir de proteínas chamadas lamininas, tem apresentado resultados considerados inéditos na recuperação motora de pacientes com lesão medular completa.
O estudo teve início há cerca de 30 anos na Universidade Federal do Rio de Janeiro, sob coordenação da bióloga Tatiana Sampaio. A proposta científica parte de um princípio biológico: os axônios — estruturas responsáveis por conduzir impulsos nervosos — crescem naturalmente sobre uma “pista” de laminina. Após uma lesão medular, essa estrutura desaparece. A polilaminina funcionaria, portanto, como uma nova base para estimular o crescimento dessas conexões.
Resultados clínicos
Em estudo acadêmico com oito pacientes diagnosticados com lesão medular completa, 75% apresentaram algum grau de recuperação motora. Na literatura médica, a taxa média de recuperação nesses casos é de cerca de 10%.
Os avanços descritos incluem movimentos sutis, porém funcionalmente relevantes, como controle parcial da bexiga, contrações musculares e sustentação em pé com auxílio. Em um dos casos divulgados, um paciente que havia perdido totalmente os movimentos conseguiu, semanas após a aplicação, movimentar o pé e, posteriormente, recuperar parte da sensibilidade abdominal.
Outro paciente tratado menos de 24 horas após o trauma evoluiu de classificação neurológica “A” (ausência total de função motora e sensitiva) para “D”, indicando recuperação significativa de força e sensibilidade.
Uso compassivo e judicialização
Até o momento, 55 pacientes recorreram à Justiça para ter acesso ao tratamento; 30 obtiveram autorização. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) permite o chamado “uso compassivo” em situações específicas, quando não há alternativa terapêutica disponível e o paciente não se enquadra em protocolos formais de pesquisa.
A fabricação da substância é patenteada pela farmacêutica Cristália.
A própria Agência Nacional de Vigilância Sanitária aprovou o início de ensaio clínico oficial, etapa essencial para comprovação definitiva de segurança e eficácia. Caso as três fases de testes sejam concluídas com sucesso, a estimativa é que o tratamento possa ser disponibilizado em até cinco anos.
Limitações e controvérsias
Especialistas alertam que o fator tempo é determinante: a aplicação tende a ser mais eficaz quando realizada até três dias após o trauma. Isso porque, com o passar do tempo, forma-se uma cicatriz na medula que dificulta a ação da substância.
Também há ressalvas na comunidade médica quanto à ampliação do uso antes da conclusão dos estudos clínicos controlados. O receio é que, sem acompanhamento científico rigoroso, eventuais efeitos adversos não sejam devidamente monitorados.
Recentemente, quatro pacientes que receberam a substância morreram. Segundo os pesquisadores, não há evidências de relação direta entre os óbitos e o tratamento.
A polilaminina não é indicada para lesões medulares incompletas, pois poderia comprometer funções ainda preservadas. Além disso, médicos reforçam que o tratamento não substitui a reabilitação intensiva, sendo a fisioterapia considerada etapa indispensável para consolidação dos resultados.
Próximos passos
Com a abertura do estudo clínico oficial, a expectativa dos pesquisadores é validar cientificamente os dados preliminares e, futuramente, possibilitar a incorporação do tratamento ao Sistema Único de Saúde (SUS).
A pesquisa, ainda em fase de consolidação científica, reacende o debate sobre inovação terapêutica, acesso à saúde e os limites entre esperança e evidência clínica.

Sara Celestino
Repórter-fotográfica, atuando na produção de conteúdo com objetivo de compartilhar a melhor informação para manter você bem-informado! E-mail. gazetarj@gmail.com
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